
Manuela de Abreu
Bela Vista, Huambo, 20/06/1939
Pastorela
Sou pastora: guardo poemas
rebanho que a ti me leva
por carreiros doutra vez
que fecundo em cada treva.
Sou pastora: guardo abril
pelas montanhas de lã
e a fartura para abrir
quando o leite diz manhã.
Sou pastora: guardo amor
guardo Angola, aqui por onde
o meu rebanho é de sol
que fecundo em cada fronde.
in "Artes e Letras" d' A Província de Angola, 10/12/1974
10 comentários:
Gostei muito deste poema ......acho que fala do poder te poder guardas coisas.....
Maria João: Atenção aos erros ortográficos / gralhas. Deve verificar sempre a escrita das palavras antes de fazer a postagem.
Não sugeriu nenhum poema novo. Tem de fazê-lo também.
Paula Cardoso
Antônio Jacinto
Monagamba
Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
— Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande — ter dinheiro?
— Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
— Monangambéée...
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
— Monangambéée...
Viriato da Cruz
Serão de Menino
Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta das estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...
na noite de breu,
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...
"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
..........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Não tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão - dê-se à corça."
Mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:
- Eué
- É casumbi...
E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitende -
a gente grande com gosto ri...
Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres busca, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
poeta angolano
Geraldo Bessa Victor
O Menino Negro Não Entrou Na Roda
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas — as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas, gargalhadas francas...
O menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
— e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
O menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos ...
O menino negro não entrou na roda.
"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
— disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quis, não quis ...
o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.
poeta angolano
Rui Bueti
Caçada
Olhos oblíquos de bochímane
em mirada de través
baque no peito
corrida
ziguezague
estertor
e trás!
(três dias
nos capins
pela extenuação)
pega a presa nos cornos
põe nas costas
leva embora então
Gostei muito deste de poema.
Para o trabalho do dia da multicultura, é preciso traduzir este poema?
Olá Júlia
Obrigada pelos seus contributos poéticos.
Gostei dos poemas que escolheu para acrescentar ao nosso blog.
Podia, contudo, ter introduzido alguns no espaço reservado ao outro poeta angolano, Agostinho Neto.
Lembre-se que o seu nome se escreve com letra maiúscula e que é o N.º 23 do 7.º 8.ª.
Até sempre
Paula Cardoso
Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.
Carlos Drummond de Andrade
de:INÊS 7º2º 2/6/2006
Olá Inês, a apressadinha:
Obrigada pelo poema. Devia tê-lo inserido na parte dos poetas brasileiros e não aqui, nos angolanos. Para a próxima tenha mais atenção, está bem? E lembre-se que é o N.º ___ do 7.º 2.ª.
Até sempre
Paula Cardoso
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