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13 maio 2006

Angola

Luanda

Agostinho Neto
(Catete-17/09/1922- 1979-Moscovo)

O Choro de África
O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África
Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens
o choro de séculos
inventado na servidão
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas
o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência
O choro de África é um sintoma
Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.

(Poemas, 1961)

12 maio 2006

Manuela de Abreu, Bela Vista, Huambo, Angola (n.20/06/1939)

Huambo

Manuela de Abreu
Bela Vista, Huambo, 20/06/1939

Pastorela

Sou pastora: guardo poemas
rebanho que a ti me leva
por carreiros doutra vez
que fecundo em cada treva.

Sou pastora: guardo abril
pelas montanhas de lã
e a fartura para abrir
quando o leite diz manhã.

Sou pastora: guardo amor
guardo Angola, aqui por onde
o meu rebanho é de sol
que fecundo em cada fronde.

in "Artes e Letras" d' A Província de Angola, 10/12/1974